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Crato, Ceará, Brazil
Um buscador, nem sempre perdendo, nem sempre ganhando, mas aprendendo sempre

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Três e trinta

Em cada esquina
O tempo ejacula um poste
Com um entroncamento
De fios de alta tensão

Por onde entre ângulos exóticos
De paralelos elétricos se vê
Um avião planar seus metais
Antes de pousar sua melancolia

Enquanto a corrente passa
Fazendo um zumbido seminal
Os micro-ondas agendam
Seus compromissos eletrônicos

Uma janela decaída
Do primeiro andar decaído
Em tese se alimenta da luz lilás
De um supremo abajur

Lá naquele intransigente
Apartamento decaído
Florinda toda acorrentada
Treme de gozo a cada chicotada

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Fração de segundos

Sete parafusos balançam
Afoitos na fuselagem da fuligem
Toda vez que os sete ratinhos fundam
A anarquia e roem as fantasmagorias
Das flores alegóricas que rondam
A vagina virgem de Madalena

Ao longo do horizonte
É possível vislumbrar a sombra
Dos soldados sem soldos que lutam
Pela transubstanciação do mito
Os coágulos dormem sob os dígitos
As moscas fecundam os signos

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Doze em ponto

Por tanto tempo
Essa canção em costelas e pele
Se esgueira pelas frestas do cabaré em festas
Os ouvidos imundos são bem mais
Mundanos do que sortudos

A usura dessas pústulas
É serem divertidas por tanto tempo
Esquadrinhados em balcões cabisbaixos
São esses os cotovelos velados
Na fila torta da sopa embalsamada

Trezentos porcos famintos
Chafurdem por tanto tempo nos desejos
Sumários de Das Dores Sem Piedade
Conhecida por suas complexas depilações
Eróticas com borboletas enferrujadas

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Nem bem seis segundos

A perplexidade
Evocada anda de coletivo
Demarca a posse da janela
Por pouco mais do que
Dois e vinte na catraca

Rose Marri
Amarrotada pela
Ausência de um espelho
Fustigada por três palavras
Sem nenhuma esperança

Vez ou outra ela
Escorre pelo corredor
Comprime a vulva sem vírgulas
Na aba do assento e sente
Mais que um leve tremor

Vinte e quatro horas depois

E mesmo assim
Toda aquela área será interditada
O envenenamento foi pelo excesso de
Parágrafos carcomidos e incisos
Evasivos em pura lascívia
E logo logo estavam todos ali
Olhares sedentos e botas
Muito bem lustradas

Apesar do prédio esquelético
Com vidraças quebradas
E infiltrações informais
Ela parecia flutuar em uma vitrine
Dependurada em cordas que
Ela amava amarrá-las
O silêncio era soberbo como
Um diploma bem dobrado

E mesmo assim
Toda aquela área será interditada
Vão aproveitar a fiação elétrica
Para vender no quilo
Aquela impávida máscara negra
Sem suspiro para os olhos
Será a posse secreta de um
Sobrenome bem nascido

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Quinze para as seis

E ela sentada
Sobre aquele velho banco de Kombi
No meio do terreno baldio
Com a ponta de cigarro
Queimava as fuligens proto-plásticas
Que esbravejavam o futuro esmigalhado
Com os olhos em eterna pesquisa
Vasculhava os recônditos
Daquela alma tão pequena
Posta naquele tão pequeno piolho
Perdido e cheio de nostalgia
Perdido na pele engelhada do seu joelho
Tão pequeno e tão sujo

Aquela voz parecia
Embrulhada em uma velha sacola
Expatriada clandestinamente
De algum supermercado de subúrbio
Você sabe o que é ducha dourada?
É você abrir as pernas sujas
E mijar sobre mim esse espasmo letal
Tire com um abridor de latas
O pecado que há nisso
E ela sentada sobre as sobras serenas
Daquele velho banco de Kombi
No meio do terreno baldio
E ela sorria apenas com o olhar

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009



Bone Machine – Tom Waits
O existencialismo surreal de um trovador

Alguns o rotulam como experimentalista, outros o tratam como maldito e alguns fazem referências reservadas à sua relação estreita com o bizarro e o grotesco, como se fora fruto de uma mente atormentada. Muitos dão às costas à sua estética musical, fugindo dela como os cães fogem das entidades soturnas da noite. Já outros percebem o poder das suas letras e das suas composições, que funcionam como toras de madeira que flutuam ofertadas após um naufrágio trágico. No entanto, poucos têm a devoção que eu tenho por Tom Waits e seu universo existencialista e surreal, enquanto que sagrado e profano.

Realmente não é uma experiência comum ouvir Tom Waits. Sua figura em palco também não é menos estranha. Suas letras extrapolam de todas as formas o tradicional e as receitas de flatulências fartas do mundo pop. Sua voz... Sua voz?! Bem, sua voz é simplesmente um instrumento de travessia entre as dimensões da vida e da morte. Ela é rouca, áspera, grave, soturna, contundente, misteriosa, cínica, irônica, confessional, lírica, sentimental, estratosférica e esquisitamente poderosa em seu encantamento de tudo aquilo que respira e vibra, mesmo que de vidro, de aço, de plástico, de carne, sangue e ossos.

O muro para Tom Waits pode representar uma clausura enquanto fechado em seus fetiches pós-modernistas ou uma libertação enquanto destronado pelas alternativas de convivência com o decadente e ilusório, que se tornou o mundo da alta tecnologia, com suas exclusões clássicas, suas mercadorias, seus consumos e seus acúmulos de lucros. Mas nunca representa para ele o lugar ideal para sentar a bunda e ficar apreciando a paisagem de aniquilamento, com a baba descendo pelo canto da boca. Por isso que ele é infinitamente radical. Por isso que a sua alma é habitada por subúrbios, por trilhos de metrô que se cruzam em uma malha subterrânea, por transeuntes maculados pela vida, que desafogam ou afogam suas mágoas em templos, em infernos ou em bares enfumaçados.

Tom Waits nunca gasta por conta. Sua música é minimalista em seu instrumental, mas transborda elementos em seu entrelaçamento estético. É possível escutar em suas composições traços do blues, do gospel, do rock, da música de cabaré, do jazz, da vanguarda, das trilhas de filmes e de teatro, entre outros itens mais exóticos como o tribalismo e os ruídos. Suas letras são existenciais, com traços fortes do surrealismo, além de um vasto rebotalho urbano, em que a vida, a morte, as demências, os assassinatos, as prostitutas, o amor e o esplendor vivenciados nos cantos e recantos das metrópoles são abordados com freqüência. O olhar de Tom Waits é povoado por ruas, avenidas, pontes, viadutos, carros, vitrines, prédios, terrenos baldios, lixos e mais lixos, vez ou outra parques, além do ser humano em suas mais variadas vertentes, com ou sem segredos.

“Bone Machine” é o décimo quarto disco de Tom Waits, realizado em 1992, pela Island Records. Esse é um disco referencial em sua carreira, não só pelos prêmios arrebatados e pelo deslumbramento da crítica especializada do mundo todo, mas também pela preservação da ousadia sonora e pela liberdade de criação. O disco foi gravado em uma sala de cimento cru, provedora de uma rica textura de ecos sutis, do Prairie Sun Recording studios, na California. A instrumentação, orquestração e arranjos são tão bizarros quanto às temáticas das composições, algumas já clássicas do cancioneiro alternativo internacional. A crítica alardeou as participações de Les Claypool, do Primus, e de Keith Richards, dos Stones. No entanto, elas passam apenas a fazer parte de um universo particular do autor, sem a menor chance de roubarem a cena ou qualquer coisa que o valha.

As dissonâncias permanecem, bem como um certo ar teatral das interpretações. As percussões metálicas povoam todo o disco, além de guitarras acústicas, distorcidas e com timbres inusitados, fazendo companhias a pianos e baixos acústicos encharcados de melancolia soturna. Vez ou outra aparece uma bateria pela metade. Esse é o mesmo caso de alguns sopros. A mixagem das músicas também preserva o estranhamento característico desse autor, que é um dos mais inquietos e radicais de todos os tempos. O resultado final é um dos discos mais importantes da cena contemporânea, simplesmente único. Prefiro não falar das faixas e mandá-los diretamente para a audição.

http://www.torrentreactor.net/find/tom-waits-bone-machine