AQUI VOCÊ ENCONTRA ARTES, DERIVAÇÕES E ALOPRAÇÕES

Quem sou eu

Minha foto
Crato, Ceará, Brazil
Um buscador, nem sempre perdendo, nem sempre ganhando, mas aprendendo sempre

quarta-feira, 30 de julho de 2008


A vida como ela é

Iracema dos lábios de réu
Mora debaixo de um luxuoso viaduto
Com vista para o mar
Exibe com orgulho o seu diploma
De primeira miss Ceará
Peri é líder comunitário na Rocinha
Tem uma ong de fachada social
Que atende aos órfãos do narcotráfico
Mas por trás do cenário ele
Alicia menores virgens para o
Consumo do Congresso Nacional
Ceci é sacoleira em tempo integral
Vende mercadoria do paraguai
Sem pagar imposto ou direito autoral
Espera a morosidade da justiça
Pra resolver o valor da pensão
Do ex-maridão que virou marginal
Fabiano levou um tiro
Numa invasão tumultuada do MST
Agora exibe o ferimento horrível
Nos coletivos interestaduais
Em troca de trocados emocionais
Chico Bento virou cantor de
Uma banda de forró eletrônico
Dizem que fez um pacto com o diabo
Pra sustentar a família fora
Das dependências do curral eleitoral
Dizem que por trás da pornografia
Existe um cara que é temente
De todos esses entre tantos
Só Bruna Sufistinha sabe ser
A vida como ela é: escreveu não
Leu o pau comeu

quinta-feira, 24 de julho de 2008


O dono do palco

Um amigo e companheiro de inúmeras trilhas musicais, Aquiles, divide comigo uma mesma opinião: em se tratando de show, o artista tem que ser dono do palco, não pode pedir emprestado a quem quer que seja. Tem que mostrar a certidão de propriedade. Assim foi Cleivan Paiva no show de abertura do III Festival de Música Instrumental do Cariri, promovido pelo essencial, digo essencial, Centro Cultural do BNB.

Não decorei nenhum nome de nenhuma música. Também pouco importa, uma vez que elas são por si inesquecíveis enquanto composição. Fazia tempo que eu não testemunhava esse mago da guitarra em ação. Que força de improviso, em cima de harmonias complexas e andamentos sobrenaturais.

O trio, formado por Cleivan, João Neto e Demontier Delamoni, respectivamente guitarra, baixo e bateria, exibiram técnica e talento. João Neto em noite especialmente inspirada, com trezentas mãos e uma consciência maior do que a Chapada do Araripe, deu um calor a mais. Convenções, harmonias penduradas, improvisos geniais e climas de pura dinâmica fizeram valer a noite.

O som não estava dos melhores, a guitarra muito baixa, inclusive sendo encoberta pela bateria em alguns momentos mais pirados de Delamoni. Agora baixo e bateria estavam bem mixados, sem brechas de timbres. A guitarra de Cleivan, na primeira música, estava muito abafada pelo excesso de grave, logo corrigida, mas permanecendo um pouco abaixo dos outros instrumentos, o que jamais pode acontecer, se o show é exatamente do guitarrista.

Cleivan é um artista único no cenário musical caririense, rápido, criativo, o riginal e preciso, sem deixar notas espalhadas no chão e sem enganações, sem aqueles clichês ridículos de jazz ou da chamada pegada brazuca, meio samba meio bossa, que tanto enche o saco. Só mesmo o solfejo de voz em cima de algumas melodias, que é completamente redundante e perfeitamente dispensável. Cleivan, esqueça o microfone meu velho.

A guitarra limpa, com o som educado do captador do braço engordado pelos registros graves, parece ser a tônica de mil entre novecentos guitarristas de jazz. Da mesma forma que o fraseado rápido e sem bands ou qualquer outro recurso mais sujo. Cleivan apresenta essas características em seu timbre e em seu fraseado, o que eu particularmente acho um verdadeiro desperdício. Nesse ponto eu sinto saudades do som mais agressivo e mais elétrico dos tempos do Ases do Ritmo. Mas nada que possa arranhar o quadro geral, são apenas preferências.

Cleivan abriu com classe e estilo o III Festival de Música Instrumental do Cariri, comprovando o seu grande momento como instrumentista e compositor. A programação promete grandes apresentações, mas com certeza, a de Cleivan será uma das principais.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

A proteção

Os leprosos estão fora da cidade.
Agora os risos são arreganhados dos lados.
Parede e meia separam os resolutos.
As amantes já não podem provar nada,
Mas no fundo elas gostam desse
Arrepio brusco de chuva nas vulvas,
Podem ser entendidos como lamentos
Indo lentos pelo corredor adentro.

As moedas resguardam o grude.
Elas cultivam os solavancos e histéricas
Copulam metálicas nos bolsos curvos.
Uma mancha se forma bem ao lado
Do papel amarelado em silêncio,
A oração pra sumir diante do inimigo
Foi escrita em tremido e parda.
Agora coleciona mais um obscuro.

Existe uma conferência de pulgas
Sobre a qualidade do sangue em serviço.
As regras são cretinas em suas réguas,
Medem o escondido sem o nulo.
Uma a uma as reticências são sós,
Enfileiradas rumo ao grande futuro.
Mas, por Deus, está tudo bem,
Os leprosos estão fora da cidade.

segunda-feira, 21 de julho de 2008



VIVA LA VIDA EM TOM PASTEL

Depois de percorrerem o mundo, lotarem estádios e embolsarem muito dinheiro, eles se reclusaram, compuseram novo material e lançaram a maior bomba de 2008. Definitivamente a banda Coldplay está configurada como uma banda de um disco só, o primeiro, e algumas faixas esporádicas. “Viva La Vida Or Death and All His Friends ”, segundo o vocalista Chris Martim, faz referência a uma frase de Frida Khalo, que ele achou o “máximo”.

Para esse novo cd, que já vendeu mais de um milhão de cópias, eles convocaram um dos maiores magos da produção do universo pop, Brian Eno, que começou a construir a sua reputação quando ainda era integrante da lendária banda Roxy Music, na década de 70. De lá para cá, Eno tem assinado a sua grife de produção, com o respaldo de parcerias de peso, como Robert Fripp, David Bowie, Carla Blay, John Zorn, entre inúmeros outros, inclusive U2, a matriz sonora do Coldplay.

Eno domina velhas e novas tecnologias, é músico, compositor e arranjador. Mas nada disso adiantou, a estética sonora é a mesma dos tempos de Ken Nelson, em A Rush of Blood to The Head, e em “X&Y”, que é produzido em sua maioria por Danton Supple e algumas faixas por Ken Nelson. Até parece que Eno compareceu apenas com o nome e deixou a sua reputação no hall de entrada do estúdio.

Em “Viva La Vida” o Coldplay não tenta se livrar de forma nenhuma da sombra sonora do U2. Muito pelo contrário, faz questão mesmo de imitar, tal qual uma banda cover. Ao longo de um interminável repertório, a banda desfila o que parece ser uma única composição, com uma mesma melodia e com os mesmos truques vocais. São faixas que não conseguem ser tristes e nem melancólicas, apenas letárgicas. É comum você encontrar nos encartes dos discos da banda, agradecimentos pela compra, pela audição e pela paciência. Nesse deveria vir um pedido formal de desculpas pela completa falta de criatividade.

O som de “Viva La Vida” parece ter vindo diretamente da merdologia dos anos 80, a pior década da produção pop, em que poucas coisas se salvam. “Viva La Vida” é um meio termo entre o pior do Marillion, se é que existe algo bom deles, e uma mistureba de Simple Minds e U2. Acho que Eno chegou antes do que qualquer um dos membros da banda, e gravou uma cama sonora cheia de delays e reverbs digitais, aprontou toda a sua parafernália de processamento digital e esperou a banda.

Até palma tem delay e reverb nesse disco. Existe um exagero de ambiências inexplicável. A bateria foi plastificada em processamentos digitais, aliás, captar baterias nunca foi o forte de Eno. A guitarra é uma chatice pobre de delays, a milhões de distância do leque de timbres de um Jack White, por exemplo. Os teclados eu vou resumir em uma única palavra: merda. Os vocais foram gravados em destaque, anunciando aí uma breve separação.

Alguém precisa dizer para o Coldplay que clima musical não é uma questão de efeitos como chorus, flange, delay, phase e reverb, muitos menos compressores e seqüenciadores; é uma questão de dinâmica, domínio dos tempos musicais, dos andamentos e a da instrumentação. É só pegar qualquer disco de Nick Cave, Tom Waits, Joni Mitchel, Van der Graff ou King Crimson e aprender.

Para os fãs, nada do que foi dito aqui faz diferença. Também não importa. Para quem está de fora, no entanto, esse é um disco completamente descartável. Não existe destaque nenhum nesse disco. Quem conseguir ouvir esse disco de uma sentada só pode ser considerado um ex-combatente do golfo pérsico, cheio de seqüelas auditivas e mentais. Essa é uma bomba com mecanismos sofisticados. Para completar a banda Creaky Boards acusa Chris Martin de ter usado a música “The Songs I Didn’t Write” para fazer a faixa “Viva La Vida”.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Dos opostos

Fragmento encontrado entre os pertences
De um beduíno conservado em êxtase até hoje,
Enquanto aparelhos vasculham o espaço
Em busca de vida inteligente


Os caçadores de palavras,
Amparados por seus aparatos,
Entraram em rota de colisão
Com a essência dos Essênios.

Dissecaram signos e
Neutralizaram o ar dos beócios
Com a minúcia do escafandro,
Anunciando a nova convenção.

Quando as suas botas atingiram
A nebulosa de Magellan,
Lá as provas evaporaram,
O intelecto tornou-se deserto.

Lá, eles encontraram
Uma chuva de almas sutis
Que invadiram os seus corações
Com o silêncio absoluto.



Os poemas em seqüência pertencem ao livro Manual de Sobrevivência Para Astronautas, ainda inédito.
Das ruas

Lido em uma lápide de um
Cemitério clandestino descoberto
Em fortuitas escavações


Na violência da cidade veloz
Um carro bateu em outro carro,
Deu-se um escarro,
Diferente do escargô,
Que carrega o seu fardo lentamente.
Diferente do que Deus
Fez carcomer e expelir
O pulmão de Cruz e Sousa.
Simplesmente ex-carros,
Símbolos da mesa posta,
Postais da voraz cidade.
Das correspondências

Alguns teorizam que o fragmento
Foi extraído diretamente do diário
Secreto da beata Maria de Araújo,
Mas nada foi comprovado ainda



Os catadores de papelão
Estão bem próximos do chão.
Proclo e Plutarco estão
Bem próximos das cortinas
Das linhas versículas.
Os ciclos dos reciclados
Estão bem próximos
Dos catadores de papelão,
Que buscam um lugar no céu.

As crianças brincam,
Se divertem com embalagens.
O pai apanha, amarra,
Amarrota e acumula,
Subjuga as fibras pardas
Aos fios do compacto.
Como é o teu nome? - É João.
E o teu? - É Tico. E tem out’o
Que é Ciço, de Pad’e Ciço.