Dos grifos
Assinalar como inconfundível
A trapaça da presença camuflada
Das gruas ante o pulo dos desesperados
Assinalar como irrefutável
A carcaça da ausência alimentícia
Do microondas bipolar posto na sucata
Assinalar como imensurável
A velha rua que sobrevive ao eterno
Apenas com verdades banais
Assinalar como praticável
Tudo aquilo que se destitui facilmente
Das qualidades essenciais
Assinalar como insuportável
A falta de subversão na resistência
E no formol da organização cultural
Não esquecer jamais
Que a verdade é a maior entre
As maiores sabotagens da ciência
AQUI VOCÊ ENCONTRA ARTES, DERIVAÇÕES E ALOPRAÇÕES
Quem sou eu
- Marcos Vinícius Leonel
- Crato, Ceará, Brazil
- Um buscador, nem sempre perdendo, nem sempre ganhando, mas aprendendo sempre
quinta-feira, 22 de julho de 2010
terça-feira, 22 de junho de 2010
O twitter de Eloá
Também pudera Eloá
Você deixou a porta aberta
Para quem quisesse entrar
A metodologia expressa
Da sociedade organizada
Vai entender a pressa
Com que se entra e sai
Da sua página virtual exposta
Ela mesma não se arrepende
Por não te perdoar
Mas perdulária anota tudo em
Sua inútil pesquisa universitária
Portanto pense bem Eloá
O sistema público de cultura
Não serve nem cafezinho
E nem tem poltrona acolchoada
A área vip fica do outro lado
É só para quem tem crachá
De curadoria da arte popular
Pública e de privada social
Água encanada é tecnologia básica
Não se compara à página
De relacionamento
Com 140 caracteres
Também pudera Eloá
Você deixou a porta aberta
Para quem quisesse entrar
A metodologia expressa
Da sociedade organizada
Vai entender a pressa
Com que se entra e sai
Da sua página virtual exposta
Ela mesma não se arrepende
Por não te perdoar
Mas perdulária anota tudo em
Sua inútil pesquisa universitária
Portanto pense bem Eloá
O sistema público de cultura
Não serve nem cafezinho
E nem tem poltrona acolchoada
A área vip fica do outro lado
É só para quem tem crachá
De curadoria da arte popular
Pública e de privada social
Água encanada é tecnologia básica
Não se compara à página
De relacionamento
Com 140 caracteres
sábado, 20 de fevereiro de 2010
A mulher barbada
Depois que você estiver pronto
Depois de enfiar três balas nele
Enquanto o abridor de latas
enferruja a sua solidão na gaveta
Você verá a mulher barbada sorrir
uma careta estranha por dinheiro
Por vinte e três anos ele sentará
Sangrando no sofá da sua sala
Por vinte e três anos você ouvirá
O barulho da morte em sua cabeça
Sem que ninguém impeça que a
A mulher barbada venha lhe buscar
O passado sobrevive em retalhos
Mesmo quando é rasgado por inteiro
Você sobe ou desce uma escada e
Está lá contando piadas sujas
Por vinte e três anos você não
Poderá sorrir nem por dinheiro
No auto-falante Paulo Sérgio cantava
Seus sentimentos embalsamados
Não era possível perceber que
A inocência se sufocava aos poucos
Espremida entre a sua mão e a dele
Um pouco antes do espetáculo
Depois que você estiver pronto
Depois de enfiar três balas nele
Enquanto o abridor de latas
enferruja a sua solidão na gaveta
Você verá a mulher barbada sorrir
uma careta estranha por dinheiro
Por vinte e três anos ele sentará
Sangrando no sofá da sua sala
Por vinte e três anos você ouvirá
O barulho da morte em sua cabeça
Sem que ninguém impeça que a
A mulher barbada venha lhe buscar
O passado sobrevive em retalhos
Mesmo quando é rasgado por inteiro
Você sobe ou desce uma escada e
Está lá contando piadas sujas
Por vinte e três anos você não
Poderá sorrir nem por dinheiro
No auto-falante Paulo Sérgio cantava
Seus sentimentos embalsamados
Não era possível perceber que
A inocência se sufocava aos poucos
Espremida entre a sua mão e a dele
Um pouco antes do espetáculo
O atirador de facas
Mesmo assim assim
existe uma velha vaca
espreitando o destino
o passado nega a eletricidade
necessária para ela ruminar
as palavras solidão amor e tangência
As coisas acontecem
para que os jornais possam mentir
o verdureiro diz que os seus alfaces
podem estar contaminados
essa é a sinceridade que
uma salada crua precisa para existir
Mesmo assim
ainda existe um novo destino
espreitando uma vaca nova
o futuro nega a cumplicidade
necessária para ele abandonar
a tragédia que existe em si
Já o atirador de facas
encara destemido o seu desafio
o público suspira um momento e
logo se entrega ao delírio de ver
a culpa nua montada em um
pônei geneticamente modificado
Mesmo assim assim
existe uma velha vaca
espreitando o destino
o passado nega a eletricidade
necessária para ela ruminar
as palavras solidão amor e tangência
As coisas acontecem
para que os jornais possam mentir
o verdureiro diz que os seus alfaces
podem estar contaminados
essa é a sinceridade que
uma salada crua precisa para existir
Mesmo assim
ainda existe um novo destino
espreitando uma vaca nova
o futuro nega a cumplicidade
necessária para ele abandonar
a tragédia que existe em si
Já o atirador de facas
encara destemido o seu desafio
o público suspira um momento e
logo se entrega ao delírio de ver
a culpa nua montada em um
pônei geneticamente modificado
terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A fatoração existencial de Matriuska
São poucos os títulos de livros que se permitem ao mesmo tempo a secura e o êxito. “Matriuska” é um deles. Esse é o título do livro de contos do cearense Sidney Rocha, cuidadosamente editado pela Iluminuras. Eis um sítio arqueológico encravado bem no meio do deserto cotidiano das altas tecnologias de mercado. De dentro dos dezoito pequenos contos brotam mulheres únicas, mas uma como contigüidade da outra, e todas carnavalizadas diante do inusitado que é o des-significado da vida.
A linguagem de Sidney Rocha é absurdamente adulta, adúltera, adulterada. A descontinuidade; a fragmentação; a vertigem; o desvão; o abismo; a circularidade dos labirintos; a plenitude do asfalto; a exoneração categórica do compartilhamento dos armários de rodoviária; a solidão esquizóide de uma camisinha desencolhida pela descompressão de um saco de lixo; a inutilidade premente e sem culpa da última vulgata desapropriada pelo sagrado em rota de fuga; e muito mais, além do fetiche, é claro, fazem parte do universo literário que brota aos punhados nos contos de “Matriuska”.
A sintaxe particular de Sidney Rocha na realidade não é única, ela é um desdobramento arquitetônico em fluxo que atravessa também a sintaxe de uma gama de outros desconstrutores, tais como, entre tantos, Robbe-Grillet, Claude Simon e Philippe Sollers. Mas, o que de fato isso importa? Nada. Mesmo porque a abordagem temática é outra e as intenções de descarnar o enredo até o osso passam necessariamente por outras vias. Restam aí, pois, a esfinge das pequenas narrativas como texturas refinadas da grande história e a dessacralização da eloqüência temática como fonte única da grande literatura.
O tema recorrente de “Matriuska” é a inserção da mulher no seu cotidiano, sem afetações heróicas ou humanistas. São sonhos, desilusões, desejos e fetiches, expostos sem truques teatrais ou arcabouços monumentais. Apenas o ser e o estar, sem maquinações de laboratórios ou defesas brilhantes de teses que não servem absolutamente para nada. A ambientação é urbana. Demasiadamente urbana. O livro tem cheiro de ferro, aço, vidro, plástico e asfalto. A cor predominante é o cinza chumbo do concreto. As arestas, as janelas, o riso tímido e os ruídos, ficam por conta do imenso tráfico de humanidade que existe em cada metrópole, mesmo que a província esteja registrada na carteira de identidade.
O sotaque de Sidney Rocha é extremamente simpático e envolvente. Suas pequenas histórias são rápidas, mas são duradouras. São novas trilhas abertas nesse emaranhado literário contemporâneo. São contos pequenos na quantidade de linhas, mas são enormes em seu feitio artístico. Nem os maneirismos de vitrine, as soluções programadas dos Best-sellers, os mistérios cinematográficos e nem as patéticas claquetes da chamada cultura alternativa você encontrará aqui. Também não espere a natureza ser salva, a corrupção ser extinta, o capitalismo ser desmascarado, o povo ser celebrado através do resgate das raízes culturais. Muito menos a confissão mirabolante dos sete anões no caso de estupro da panaca branca de neve.
Sugiro que a sua leitura comece exatamente pelo conto que dá título ao livro, exatamente na página 23. Quando a personagem começa retirar da bolsa todas as suas importâncias, o leitor é apresentado a um escatológico desfile de objetos e fetiches. Eis o valor de uma lembrança. Eis o ser inserido em sua significativa insignificância. É só um lampejo. É só um fôlego. A partir daí, então, você terá um universo inteiro aos seus pés, pois literalmente o seu mundo será colocado de cabeça para baixo. Esse é um livro próprio para quem tem o hábito da leitura. Mais definitivamente: é um livro impróprio para quem não largou o hábito e vive de antigas sagrações
São poucos os títulos de livros que se permitem ao mesmo tempo a secura e o êxito. “Matriuska” é um deles. Esse é o título do livro de contos do cearense Sidney Rocha, cuidadosamente editado pela Iluminuras. Eis um sítio arqueológico encravado bem no meio do deserto cotidiano das altas tecnologias de mercado. De dentro dos dezoito pequenos contos brotam mulheres únicas, mas uma como contigüidade da outra, e todas carnavalizadas diante do inusitado que é o des-significado da vida.
A linguagem de Sidney Rocha é absurdamente adulta, adúltera, adulterada. A descontinuidade; a fragmentação; a vertigem; o desvão; o abismo; a circularidade dos labirintos; a plenitude do asfalto; a exoneração categórica do compartilhamento dos armários de rodoviária; a solidão esquizóide de uma camisinha desencolhida pela descompressão de um saco de lixo; a inutilidade premente e sem culpa da última vulgata desapropriada pelo sagrado em rota de fuga; e muito mais, além do fetiche, é claro, fazem parte do universo literário que brota aos punhados nos contos de “Matriuska”.
A sintaxe particular de Sidney Rocha na realidade não é única, ela é um desdobramento arquitetônico em fluxo que atravessa também a sintaxe de uma gama de outros desconstrutores, tais como, entre tantos, Robbe-Grillet, Claude Simon e Philippe Sollers. Mas, o que de fato isso importa? Nada. Mesmo porque a abordagem temática é outra e as intenções de descarnar o enredo até o osso passam necessariamente por outras vias. Restam aí, pois, a esfinge das pequenas narrativas como texturas refinadas da grande história e a dessacralização da eloqüência temática como fonte única da grande literatura.
O tema recorrente de “Matriuska” é a inserção da mulher no seu cotidiano, sem afetações heróicas ou humanistas. São sonhos, desilusões, desejos e fetiches, expostos sem truques teatrais ou arcabouços monumentais. Apenas o ser e o estar, sem maquinações de laboratórios ou defesas brilhantes de teses que não servem absolutamente para nada. A ambientação é urbana. Demasiadamente urbana. O livro tem cheiro de ferro, aço, vidro, plástico e asfalto. A cor predominante é o cinza chumbo do concreto. As arestas, as janelas, o riso tímido e os ruídos, ficam por conta do imenso tráfico de humanidade que existe em cada metrópole, mesmo que a província esteja registrada na carteira de identidade.
O sotaque de Sidney Rocha é extremamente simpático e envolvente. Suas pequenas histórias são rápidas, mas são duradouras. São novas trilhas abertas nesse emaranhado literário contemporâneo. São contos pequenos na quantidade de linhas, mas são enormes em seu feitio artístico. Nem os maneirismos de vitrine, as soluções programadas dos Best-sellers, os mistérios cinematográficos e nem as patéticas claquetes da chamada cultura alternativa você encontrará aqui. Também não espere a natureza ser salva, a corrupção ser extinta, o capitalismo ser desmascarado, o povo ser celebrado através do resgate das raízes culturais. Muito menos a confissão mirabolante dos sete anões no caso de estupro da panaca branca de neve.
Sugiro que a sua leitura comece exatamente pelo conto que dá título ao livro, exatamente na página 23. Quando a personagem começa retirar da bolsa todas as suas importâncias, o leitor é apresentado a um escatológico desfile de objetos e fetiches. Eis o valor de uma lembrança. Eis o ser inserido em sua significativa insignificância. É só um lampejo. É só um fôlego. A partir daí, então, você terá um universo inteiro aos seus pés, pois literalmente o seu mundo será colocado de cabeça para baixo. Esse é um livro próprio para quem tem o hábito da leitura. Mais definitivamente: é um livro impróprio para quem não largou o hábito e vive de antigas sagrações
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
O enquadramento
Por três dias seguidos
a cabeça de Alomar está exposta
naquela estaca indefesa para
a maldição dos segredos
a retórica retorcida das moscas
incomoda menos do que
aqueles olhos abertos por três dias
Não as intumescidas eternidades
não os apanágios sobre a dor
nem as ataduras turvas da história
ou até mesmo o silêncio tênue
que envolve a música do universo
o que mais importa agora é o
que aqueles olhos viram por último
Por três dias seguidos
olho para o rio e suas águas lentas
espero pacientemente pelo pintor
que vai aprisionar a multiplicação
dos punhais e dos alvos varais
por três dias seguidos minha
covardia escorre naquela estaca
Por três dias seguidos
a cabeça de Alomar está exposta
naquela estaca indefesa para
a maldição dos segredos
a retórica retorcida das moscas
incomoda menos do que
aqueles olhos abertos por três dias
Não as intumescidas eternidades
não os apanágios sobre a dor
nem as ataduras turvas da história
ou até mesmo o silêncio tênue
que envolve a música do universo
o que mais importa agora é o
que aqueles olhos viram por último
Por três dias seguidos
olho para o rio e suas águas lentas
espero pacientemente pelo pintor
que vai aprisionar a multiplicação
dos punhais e dos alvos varais
por três dias seguidos minha
covardia escorre naquela estaca
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