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quinta-feira, 6 de agosto de 2009






Terra Sonâmbula – Mia Couto
Uma estrada que nunca é a mesma

Mia Couto é, além de um grande contador de histórias, um arquiteto da linguagem, um criador de teias, de corredores e de portas que se comunicam através de espelhos mágicos. A arte literária de Mia Couto está distante dos best Sellers, assim como a obviedade não está inserida em sua lógica criativa. Terra Sonâmbula é o primeiro romance desse moçambicano cheio de imaginações. Lançado em 1992, ele faz parte de uma trilogia do autor completada por “A Varanda do Frangipani” e “O Último Vôo do Flamingo”, em que ele aborda a trajetória moçambicana antes e depois da independência.

Os principais aparatos literários de Mia Couto partem da oralidade, da riqueza cultural, dos mitos e das lendas do seu povo, sofrido e maturado por uma colonização traumática e 30 anos de guerra civil. A poesia está inserida em seu imaginário literário, ela é o esteio em que se apóiam as suas possibilidades de desdobramentos do realismo fantástico, do realismo mágico e do realismo maravilhoso. Ele sofre influências diretas de Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, José Saramago, de outro escritor moçambicano: Craveirinha, e do escritor angolano José Luandino Vieira, autor do estupendo “O Livro dos Rios”.

Mas isso não quer dizer que Mia Couto tenha uma escrita capenga, em que suas influências escrevem por si. Muito pelo contrário, esse é apenas um ponto de partida, pois esse moçambicano escreve porque tem talento e originalidade, além de uma literatura de interferência social viva, mas não panfletária, mas não sectária. Ler “Terra Sonâmbula” é entrar em transe, em comunicação direta com os mundos paralelos e descontínuos da história, é visitar o estranhamento da poesia legítima. O mundo fantástico do velho Tuahir e do menino desmemoriado Muidinga revela um emaranhado de interligações entre a história e a ficção.

O pano de fundo de “Terra Sonâmbula” é a guerra civil de Moçambique e sua portentosa força de destruição e aniquilamento. Mas a perspectiva histórica tradicional é descartada. Não existe a presença de documentos, de datas presumidas, de testemunhos protocolados, de provas e contraprovas. O que emerge das 206 páginas dessa obra-prima contemporânea são os rebotalhos vivos das trincheiras espirituais daqueles que sobreviveram ao massacre indiscriminado ou que morreram anonimamente nas curvas sorrateiras das estradas do destino de um povo.

Mia Couto utiliza a técnica de construção em abismos para desenvolver o enredo de “Terra Sonâmbula”, que narra a trajetória fantástica de Tuahir e Muidinga, que vagam pelos ermos de um país devastado pela sangria desenfreada provocada pela insensatez humana. Depois que os dois encontram um ônibus carbonizado na beira da estrada, o velho resolve fazer morada, a contragosto de Muidinga, que não vê futuro permanecer ao lado de tantos cadáveres. Depois de resolvido que se abrigariam ali, eles buscam enterrar os mortos. É quando Muidinga encontra uma mala ao lado de um corpo perfurado por balas. Nela estão os maravilhosos cadernos de Kindzu, que jaz ali mergulhado em seu silêncio misterioso.

As histórias de Muidinga e de Kindzu irão se encontrar e se misturar, da mesma forma que a história e a ficção. A narrativa de Mia Couto é repleta de oralidade e de narrativas dentro de outras narrativas, em uma circularidade mágica em que desfilam tipos e estirpes, deuses e homens, identidades e entidades, através de uma reflexão densa sobre a necessidade de se juntar os pedaços e as desapropriações materiais e imateriais de um povo fustigado ao extremo pela tragédia, pela separação e pelo deslocamento. Após iniciar a leitura dos cadernos de Kindzu, Muidinga percebe que a estrada muda constantemente suas formas e suas paisagens. Com o aprofundamento das leituras ele percebe que ela muda também o significado das trajetórias, dos caminhos e dos transeuntes.

Esse encantamento fantástico se perpetua ao longo da narrativa de Mia Couto, que se desdobra em várias outras recontações mágicas e maravilhosas. Os personagens que vão aparecendo nos cadernos de Kindzu vão trazendo elementos para que Muidinga reconstrua o seu imaginário perdido devido a uma doença. Tuahir, que trabalhava enterrando mortos em covas coletivas e que recolheu Muidinga de um amontoado de cadáveres, passa a perceber que aqueles cadernos podem muito mais do que restituir a memória do seu protegido, eles podem alimentar a própria vontade de prosseguir.

O livro de Mia Couto fala da guerra, mas não através das suas entranhas, mas através das suas sombras, dos seus ecos. Em um jogo de aproximações e distanciamentos, de palavras criadas e veneradas, de junções e disjunções, o leitor vai tomando pé da situação sem que ele queira de fato que essa situação adquira uma forma definida, pois ele descobre pela força poética do autor que aquela é uma história de retalhos, de mosaicos, de ladrilhos pacientemente fixados ao logo dos caminhos e descaminhos. “Terra Sonâmbula” é uma história em que a completude não tem pertinência. E esse é justamente o lampejo genial de Mia Couto: saber ilustrar a força que a guerra tem em descompletar.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009






Arte e artifícios

Desde a propagação dos mitos e das lendas, fundadoras do inconsciente coletivo da humanidade, existem conceitos e definições de arte. A fragilidade dessas elaborações teóricas findantes se dá pelo fenômeno da sincronicidade entre o objeto de arte e o espectador. Entre eles existe um vasto espectro de meios e fins, articulados e desarticulados, construídos ou desconstruídos, que se movimentam esteticamente dentro do implacável arcabouço do tempo, do espaço e da história.

Tendo como ponto de partida o livro “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, de José Saramago, mas não como de chegada, pois isso é irrelevante na abordagem da arte, é possível perceber que a criação artística pode até parecer um caminhão de japonês canonizado como o ensimesmamento absoluto da coletividade, mas quando se chega perto é mais possível ainda perceber que cada um tem intestinos e metabolismos próprios, como merdas e proventos distintos. O que define verdadeiramente o fedor da bosta e a eficácia do alimento é a perplexidade crítica do indivíduo diante do objeto.

O enredo do livro não poderia ser mais simples: Ricardo Reis volta do Brasil para Portugal, após a morte do poeta Fernando Pessoa. Uma pincelada solta no impressionismo lúdico das relações interpessoais. Nada mais próprio, nada mais singular, nada mais recolhido ao privado, se não fosse a grandiosidade da inserção criativa, que transborda existências fictícias ou históricas, em ramificações, em derivações e em mosaicos que tendem para o assimétrico a partir das profundezas da sua simetria. Mas é preciso estar atento, pois os códigos dessa obra de arte não trazem manual do proprietário, só mesmo a possibilidade de devolução, caso a satisfação do consumidor não tenha sido garantida. O que é essa a essência legitimadora de toda grande obra, inserida no vasto e esquisito mercado das trocas simbólicas.

As interações criadoras se multiplicam nesse livro feito uma espécie inovadora da criação em abismo (mise em abyme), teorizada pela primeira vez, em 1893, pelo escritor francês André Gide. Ricardo Reis é um heterônimo de Fernando Pessoa, que por sua vez é retomado por Saramago para dar luz ao fim dos seus dias, próximo do seu criador. Mas acontece que Ricardo Reis chega do Brasil a bordo do navio Highland Brigade, lendo o livro “The god of the Labyrinth”, do escritor Herbert Quain, sendo que tanto o livro como o escritor foram inventados por outro escritor, Jorge Luis Borges. Quando Ricardo Reis vai embora para o além, com Fernando Pessoa, depois da simbologia mágica dos nove meses, para vida e morte, ele leva debaixo do braço o livro que ele não consegue terminar de ler, durante toda a narrativa.

Eis a abertura desse livro monumental: “Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Highland Brigade...” Essas palavras iniciais configuram o encantamento fantástico que permeia as 428 páginas desse magnífico exercício de pura arte. O labirinto, as concepções de deus e suas criaturas, dão as caras, de forma extremamente complexa, desde as primeiras palavras. “Aqui o mar acaba e a terra principia.”, é uma intertextualidade invertida do verso que inicia “Os lusíadas” de Camões. Evocando e invocando a suprema fusão épica entre história e ficção. As águas turvas, a cidade pálida, o barco escuro, o fluxo soturno, nos remetem direto à travessia do Aqueronte, ao âmago do maior enigma da humanidade: a morte e seus desdobramentos em labirintos.

Mas esse é apenas um livro que não se enquadra no conceito de arte utilitária. E nem em qualquer outro conceito existente de arte. É apenas arte. Os aspectos que segredam as relações internas e externas do leitor com o livro se estruturam de forma particular, mas a partir de um universo próprio do autor, concebido como um aparelho e não como um aparelhamento. São epifanias mútuas. No entanto, nada impede que em sua teia criativa, o autor insira elementos críticos da, sobre e para a história viva dos homens, enxertados em suas culturas e em seus universos que procriam outros universos. Mas isso é apenas arte. Ou como melhor diz o próprio Herbert Quain em carta escrita para Jorge Luis Borges, no dia 6 de março de 1939: “Sou como as odes de Cowley. Não pertenço à arte, mas à mera história da arte.”

E se o leitor não tiver esses elementos para uma possível compreensão do material estético do autor e do seu aparato criativo? A obra de arte, momentaneamente, não se completa. Mas apenas momentaneamente, pois o seu caráter, como criação, é mesmo fragmentário e descontínuo, ela está viva, independentemente do seu espectador. Obra de arte para mim é isso, o resto é artifício. É claro que esse é um propósito crítico. Como da mesma forma é proposital a inserção da obra de Quain, na obra de Borges, na obra de Saramago, em contraponto com as obras de Fernando Pessoa, Ricardo Reis e Camões.

Não é à toa que o conto de Jorge Luis Borges, de onde saiu a intertextualidade de Saramago, tem o título de “Exame da Obra de Herbert Quain”. Trata-se de um ensaio crítico. São espelhos que se replicam em forma criativa. De forma irônica o tema da complexidade estética da obra de arte é colocado em pauta no conto, em que são citados Flaubert, Henry James e Shakespeare. Ironia maior é o crítico e Herbert Quain não concordarem que essa seja a essência da obra de arte, eles defendem a simplicidade do comum. A ironia se torna mais sintomática quando os dois concordam, também, que o fato estético não pode prescindir de algum elemento do assombro. Eis a provocação de dois artistas excepcionais, que não tinham a menor condescendência com a ignorância artística dos seus possíveis leitores.

De fato, que a ignorância se exploda!

quinta-feira, 30 de julho de 2009



Macaco Bong
Instrumental sem macacada

Uma surpresa boa sempre rola bem. Quem me apresentou o som do Macaco Bong foi Manoel Barros, velho amigo de inúmeras viagens sonoras, transubstanciadas no velho Cariri cearense, com os pés sempre alocados no universal. Combatemos juntos na trincheira cultural dos sebos, eu com o Et Cetera e ele com o Alan Poe. Ele resiste firme com o Solaris, reduto de cultura e bons tempos. Sempre nos encontramos e falamos sobre música e a mercadoria sonora, essa puta velha, cheia de truques e manhas seculares. O Macaco apareceu no último encontro.

O Power trio cuiabano surpreende de várias formas. É rock instrumental, mas não é pirotecnia guitarrística esclerosada dos fritadores de plantão. É independente, mas não tem parentesco nenhum com a merdologia indie que assola os universos paralelos e alternativos. É fora do eixo sul-sudeste, mas não tem a pretensão de resgatar porra nenhuma da cultura popular. Além disso, não cabe em nenhum rótulo ou tags existentes na falida imprensa especializada. Macaco Bong é rock instrumental sem macacadas e sem a sombra sorumbática da virtuose. O que já é muita coisa.

A banda já foi um quarteto e já lançou dois Eps. Macaco Bong nasceu em 2004, em Cuiabá (MT). Recentemente a banda lançou o seu primeiro cd “Artista Igual Pedreiro”, que faz parte do excelente projeto do selo Trama: Álbum Virtual da Trama, em que você tem disponibilizado trabalhos integrais de artistas com downloud grátis, inclusive com direito a capa, fotos e extras. São iniciativas como essas que mantêm arestas para a verdadeira música respirar livremente, em meio ao intenso mercado escravo dos jabás. Eis o endereço da redenção: http://www.tramavirtual.com.br/. O endereço específico da banda Macaco Bong é : http://www.tramavirtual.com.br/macaco_bong.

Atualmente a banda é integrada por Bruno Kayapy (guitarra), Ynaiã Benthroldo (batera) e Ney Hugo (baixo). O som que essa garotada faz é uma mistura de rock, jazz, psicodelia, hardcore, noise, hard e pop. As dez faixas do disco apresentam uma verdadeira parede sonora, com texturas modais, mudanças de andamento, ruídos, climas, dinâmicas e tensões sonoras da mais fina origem da vagabundagem musical do rock’n’roll. Os timbres mudam, mas não com tanta freqüência. Praticamente não existem solos, só em duas músicas: “Bananas For you all” e “Compasso em ferrovia”. O som do Macaco Bong é para quem não se preocupa em encontrar a peça mais intelectualizada ou a composição mais fodona do universo.

Os destaques ficam por conta da magnífica “Fuck you lady”, com belas passagens acústicas e climas em oitavas de muita inspiração. A super densa, dissonante e psicodélica “Noise James”, com uma pegada de peso, com uma guitarra saturada na válvula e mudanças de timbres sutis. A super climática, com belo tema em oitavas e timbre de guitarra praticamente limpo, “Bananas For You All”, com direito a um solo econômico, com texturas de delay e chorus. E a mais surpreendente de todas, “Compasso em Ferrovia”, climática, meio jazz-rock, com solo modal e um sustain de guitarra infinito, que prenuncia uma parede experimental de ruído e tensão.



Macaco Bong é a prova de que nem tudo está perdido na cena rockeira brasileira. Se por um lado o rock brasileiro vive do pastiche comercial de bandas como NXZero e outras porcarias do gênero, por outro lado o caminho indie é repleto de porcarias que imitam outras porcarias gringas. Mas existe um caminho do meio, bem ao estilo Macaco Bong, capaz de proporcionar prazeres inimagináveis, com ou sem trocadilho.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O rodopio aperreado

Foi quando
Apareceram os espectros
E a multiplicação dos miasmas
Pelas cercanias guardadas
Por Deus e pela sua própria
Versão irada em risadas áridas
No seu favor está a vida
A sua ira dura só um momento
O choro pode durar uma noite
A alegria vem pela manhã
Assim se espera que
As esporas sejam esporádicas
E as lágrimas magmáticas

E riram
Descontroladamente
Todos os loucos
E copularam histéricos
Todos os infindáveis reclusos
E todos os inocentes apascentaram
Todos os incautos trêmulos
E todo o mijo foi vertido
Diante do imensamente inseguro
E estava todo o instável
Assim se vocifera que
As esmolas sejam imoladas
E as perdas perdoadas

Solano
Aquele dos dentes de ouro
Foi visto sorrindo para a morte
Mas ela não viu riqueza ali
Ele passou a morder o
Próprio desespero cadavérico
Joana das Trevas teve os seus peitos
Repartidos por sete desejos esganiçados
Teobaldo da Catingueira matou
Vivos e mortos sem qualquer piedade
Assim se considera que
As contas sejam recontadas
E as preces apreciadas

Pouquidão
Não é um mero nome
Pendiam de todos os lábios
Todas as palavras pronunciáveis e
Todas elas eram surdas mais que mudas
E toda sorte de cacarecos ali fora
Espalhada e nada foi juntado
E tudo se somava para diminuir
Justamente quando se mais ia
Mais se voltava em voltas
Assim se pondera que
As pragas sejam propagadas
E as dores adoradas

Farelentos
Os fazedores de estradas
Se foram daqui sem qualquer
Pernoite de angústias em hóstias
E se foram a sós tangendo todos os tatus
E todas as saídas ficaram em saias
Deixando para os sorrisos maternos
Como hímens aritméticos
O esguio máximo que há em um
Apurado de leite em pó
Assim se pondera que
Os peitos sejam respeitados
E os partos repartidos

Martiniano
Aquele das sementes sangradas
Furou seus furúnculos com
Filetes de balas perdidas
E de imediato cresceu ao seu redor
Um pântano de alucinações
Dídimo Sem Piedade contou
Com todos os seus dedos
E até o quanto pôde os dísticos
Que circulam uma maldição
Assim se pondera que
Os fardos sejam fardados
E os nomes nomeados

Imensidão
Foi o que Salete Sozinha viu
Ao olhar para o céu sem astúcia
E pedir ao Supremo o controle
Sobre os próprios dentes
Para que suas palavras de repúdio
Não tivessem sílabas amputadas
Já Eva de Tudor não pôde impedir
Que os gritos de sua prole se evadissem
Tomando rumos ignorados
Assim se pondera que
Os signos sejam signatários
E os ditos editados

Então vieram
Uma a uma e depois aos montes
As descendências túmidas
E de prontamente vieram me chutar
Não estranhei nada
Nem os olhos vermelhos
E assim as fizeram como assim
Eu bem sei que essas pedras
E essas lenhas todas são minhas e
Em fogo querem me pertencer
Assim se pondera que
Os fatos sejam fatiados
E os exércitos exercitados

E eu
Que já te vi nua
E agora envolta em névoa
E agora me enervando
Com tantos nomes e tantos retalhos
E tanto e tanto estraçalhar
Agora se me ergue em vapor de um
Vulcão voraz a estripar até vozes
A me dizer em zeros e vírgulas
Que não existe vazio sem vórtices
Assim se pondera que
As marcas sejam demarcadas
E as cóleras encoleiradas

E esse
Choro cheio de estiagens
Que eu vi refundar o despedaçar
É também por ti Eponina
Ele corre sem escorrer
Evacuado em vapores decimais
Assim eu procurei em vão
Por todos os sentidos
E todos eles se estilhaçaram
Por todos os desvãos
Assim se pondera que
As forças sejam reforçadas
E as farpas esfarrapadas

E partiram
Aqueles que foram destinados
E os deslocados revelaram as
Apostasias dos apóstolos
Eram trinta e dois os debruçados
E mais de cem incrustados
No vento em posição de feto
Eram setenta e três as orações
Cuspidas em línguas mortas
E só um o desespero maior
Assim se pondera que
Os sinos sejam assinados
E os amparos reparados

Foi quando
Eu vi Anunciada descendo
Pelas escadas flutuantes
Com trezentas entidades enrugadas
Seguras pelas goelas
Do cemitério recuado brotaram
Arcanjos sob uma árvore frondosa
Assim o cruzeiro primordial
Foi lavado com larva
Em divina dádiva atávica
Assim se pondera que
Os atentos sejam atentados
E as provas provocadas

Sem povo
O povoado era um ovo
Sem ovários irrevogáveis
O rio silencioso agora é um
Charco imóvel embebido em
Memórias remuneradas
Um peixe azul voa entre as
Borboletas sutis anunciando assim
Um narrador multiplicado
Para as divisões da história
Assim se pondera que
Os cursos sejam discursos
E os desertos desertados

sábado, 27 de junho de 2009










O Modernismo sob a ótica
De Peter Gay

Mais uma vez a editora paulista Companhia das Letras é responsável pela publicação de uma verdadeira obra de arte contemporânea, através da completa acepção da palavra pertinência. Agora a editora celebra a cultura em um calhamaço de 578 páginas sobre a origem e expansão do Modernismo, escritas pela competência e erudição do respeitadíssimo historiador alemão Peter Gay, autor de obras consagradas como “O Estilo na História” e “Freud: uma vida para o nosso tempo”.

“Modernismo – O Fascínio da heresia - de Baudelaire a Beckett e mais um pouco” é o extenso título desse livro urgente para aqueles que vivem de aparências, imprescindível para aqueles que necessitam de uma alimentação saudável e fundamental para quem tem sua parcela de culpa, direta ou indireta, em nosso quadro universal do fracasso escolar, terra em que a pilantragem é matéria farta para teses de doutorado e o exibicionismo de títulos é a legitimação da mediocridade indelével. Nessa obra basilar, Peter Gay despiu a linguagem da cosmética teórica e assumiu corajosamente suas particularidades e preferências.

Dos incontáveis códices estéticos que servem “cientificamente” para fundamentar o arcabouço artístico do Modernismo, Peter Gay se utiliza, de forma minimalista, praticamente de dois axiomas: a heresia estética – como ele chama a transgressão aos cânones artísticos estabelecidos desde o período clássico até a famigerada era vitoriana – e o intenso mergulho psicológico da abordagem da existência do ser e do estar, em que pesem aí a descontinuidade do discurso e a fragmentação da realidade. Para tanto, o autor desvenda com muita habilidade e proficiência, como a história forneceu os motivos e os elementos que proporcionaram uma mudança tão radical, que foi o Modernismo, na forma de conceber, produzir e vender a arte.

“Modernismo – O Fascínio da heresia - de Baudelaire a Beckett e mais um pouco” é um magistral compêndio histórico de segmentos artísticos, de autores e de obras que perfazem a práxis modernista, abarcando de uma só vez literatura, teatro, artes plásticas, música, balé, cinema e arquitetura. Mesmo sem a pretensão de ser uma história social do Modernismo, Peter Gay não deixa de aprofundar as implicações da história, das ciências, da política e da economia, com todos os seus desdobramentos no cotidiano das relações sociais, na formação do paradigma modernista.

O que isso significa, bem como o que isso sugere, o leitor descobre através de uma leitura extremamente agradável e prontamente alertada para outras abordagens complementares, afinal de contas são galáxias complexas para caberem totalmente em um universo de apenas 578 páginas. Já na tomada inicial, quando o autor estabelece a presença de Charles Baudelaire como uma das pedras fundamentais nessa guinada estética, o leitor mais atento sente que um detalhamento do ambiente da segunda revolução francesa, de 1848, fornecerá muito mais subsídios para a aceitação da importância toda do maldito das flores do mal. Nesse caso, se o leitor tiver em mãos o livro “O Velho Mundo Desce aos Infernos”, de Dolf Oehler, também da Companhia das Letras, a festa será repleta de transversais.

A erudição e o refinamento das idéias de Peter Gay nos remetem diretamente à leitura de outros livros cheios de contigüidade tais como “A Emoção e a Regra”, com organização de Domenico de Masi, da editora José Olympio, que aborda os grupos criativos na Europa de 1850 a 1950 e atesta para o leitor que o paradigma modernista nãos se restringiu apenas a arte; e “Pós-Modernidade: a lógica cultural do capitalismo tardio”, de Fredric Jameson, da editora Ática, que mostra para o leitor os desdobramentos culturais, políticos e econômicos que vieram depois do Modernismo. A leitura desses outros livros não indica uma deficiência no livro de Peter Gay, muito pelo contrário, comprovam a envergadura e complexidade dessa obra magnífica.

Seria enfadonho esboçar aqui uma lista de autores e obras, bem como de tendências e peculiaridades expostas por Peter Gay ao longo de sua obra. É bem mais profícuo afirmar que até o mais perdulário dos imbecilóides reacionários, após a leitura desse livro, retirará das suas fuças o ar de parvo e a atitude de beócio diante de um quadro de Kandinsky ou de uma composição de Varèse. Mas se o incauto leitor não souber quem é nenhum dos dois nomes citados é melhor continuar acreditando que questão de gosto não se discute.

Munido de um conhecimento espetacular Peter Gay esmiúça com seu escafandro intelectual como o ódio à burguesia tornou-se um dos instrumentos que solaparam os quadrantes da estética conservadora rumo aos caminhos tortuosos e abismados da arte pela arte, até chegar ao litígio completo com o senso comum, passando pelo viés anarquista do desconstrucionismo das vanguardas, traduzido dramaticamente pela negação da própria arte em obras desconcertantes, como as sátiras prolíferas de um Marcel Duchamp, por exemplo.

Vale ressaltar que uma obra com uma temática dessa desnatureza jamais fugiria da polêmica. Sendo assim, a obscuridade e o enigma, que são próprios do desfazer modernista, se apresentam na obra de Peter Gay justamente através de algumas ausências inesperadas. É paradoxal atribuir uma importância descomunal à poesia de T. S. Eliot, sem fazer nenhuma menção à genialidade poética de Ezra Pound, o verdadeiro mestre do Modernismo e do próprio T. S. Eliot, ou até mesmo nenhuma referência às vertigens abissais de Fernando Pessoa.

Também é surpreendente como o autor alemão detalha o atonalismo musical até Schoenberg, passando por John Cage, sem abranger o concretismo eletrônico de Karlheinz Stockhausen. Outras tangências irremediáveis dizem respeito a nenhuma citação de Jorge Luís Borges e José Saramago, quando Peter Gay constrói uma cádetra justa a outro mestre do Realismo Fantástico, que é Gabriel Garcia Marques. Mas isso é o de menos. O saldo é muito mais superior em informações do que em formações, o que torna essa obra um verdadeiro antídoto à picaretagem, à ignorância e ao achismo provinciano.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A dama de ferro

Só minhas
De fato abortaria eu
As muralhas da China
Se outrora apetecido estivesse
De tê-las parido em paralelo

E cagaria velhas fotografias
Enredadas de novos conflitos
Se houvera um dia ter saboreado
A docilidade calculista da vitória

Mas não estão os mortos
Aqui em suas contraproducências
Amplamente duvidadas
Como dívidas indevidas

Ao longo dos meus fatos
Pontiagudos em amarguras
Corre um rio fantasma
Ausente de si e de ser e estar

São nessas águas
Molhadas pelo aparente vazio
Que se banha o meu deus falido
Livre das torturas que agora são
Só minhas
Três e trinta e três p.m.

Isso não é um cachimbo
Mas há sem dúvidas
Um vendaval sob
A chuva ácida que cai
Sobre Bombaim

É ela mesma que
À distância sabota os
Seus órgãos internos
Para alimentar o ansioso
Mercado negro

É preferível que nesse
Carrinho de compras virtual
Você não coloque
A orelha de Van Gogh
Como absorvente

E nem bote
Feito serpente
O fêmur de James Ensor
Como um impávido
Estimulador clitorial

É preponderante
Que depois de gozar
Com um vibrador
Desenhado em Paris
E fabricado em Pequim

Que você mije com o
Frescor da menstruação
Sobre a última grade
Abstraída da última
Úlcera de Mondrian

Deixe secar ao sol
Com o passar do tempo
Você sentirá o prazer
Do ócio orientado ocidental
De entrega em domicílio