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quarta-feira, 3 de junho de 2009



Caetano Veloso em Juazeiro do Norte
A sagração da iconoclastia

O dia 30 de maio de 2009 entrou carnavalescamente pela porta dos fundos da história cultural da tribo Cariri. Uma das cenas mais grotescas já encenadas no teatro rabelístico caririense anunciou a premência do burlesco: quando Caetano Veloso entrou no Palco da Aplausos, encontrou uma platéia com mil e uma cadeiras de plásticos na cabeça. Estava fundada, pois, naquela noite sem devolução, a versão da inversão.

Além da alegórica transferência localizada da bunda e do assento, Caetano Veloso inverteu muito mais, colocou no lugar da província o universal; a arte no lugar da desarticulação; no lugar da idolatria a iconoclastia; o ontológico no lugar da antologia; no lugar do envolvido ele colocou o evoluído, que trouxe consigo o futuro para uma imensa parte daquela gente presa ao passado mumificado. Assim a chuva demonizada em forma líquida, indesejada pelas pranchinhas e pelo brilho fácil das jóias folheadas, veio em forma de uma inesperada inundação estética civilizatória, provinda de uma banda pós-moderna e de um artista atemporal.

Quem foi para o show esperando encontrar um Caetano milagreiro, capaz de reacomodar o que já estava acomodado nos recônditos miseráveis dos barzinhos de ponta de rua, encontrou um Veloso exorcista, capaz de reduzir a migalhas os seus demônios cultivados e os demônios incultos, possuidores de boa parte da platéia, que confundiu espetáculo musical com evento social e ingresso com convite para a proclamação da inutilidade da primavera no baile do Lions Club, só faltaram as doações generosas de alimentos não perecíveis para as vítimas – coitadas - das cheias, elas mesmas.

Caetano Veloso estava e sempre esteve íntegro artisticamente. Com um repertório impecável para quem o concebe livre para criar e um repertório imperdoável para quem o conserva cativo para lembrar, Caetano cantou, dançou e profanou a sagração dos medíocres. A maioria das músicas do repertório do show está no disco novo “Zii e Zie”. A parte menor das músicas do repertório, e nem por isso minúscula, faz parte do período do exílio do compositor e de outras fases de sua carreira extensa e internacional, com mais de quarenta discos de inéditas lançados no mercado interno e externo.

Mais pitoresco do que os guarda-chuvas na platéia, que lembraram as arquibancadas do Romeirão em dia de Icasa e Guarani, foram as reações dos “emergentes”, imbecilizados pela falta de civilidade e enfeitados pelo excesso de penduricalhos inócuos, ao vaiarem e apuparem Caetano Veloso com expressões como bicha e outras idiotices, a cada música nova apresentada. Enquanto isso, do outro lado, no avesso desse universo de baixarias, outra parte do público se deliciava com aquela chuva fina, sutil e translúcida de talento, competência, profissionalismo, estética contemporânea e arte, que Caetano Veloso e a Banda Cê, fizeram cair sobre a Aplausos, para lavar de uma vez por todas o lixo cultural que ainda teimava em ecoar entre aquelas paredes.

Mas essa postura com requinte de camelódromo e de cobrador de van, apresentada por uma boa parte da platéia de grife, é mais do que compreensível e lamentável, pois quem tem sido educado intensamente pela filosofia de cabaré e álcool dos Aviões do Forró, Solteirões do Forró e outras macacadas do forró, não poderia jamais reagir positivamente à poesia de vanguarda de Caetano Veloso, principalmente em uma roupagem tão refinada e alternativa proporcionada pelo trio Pedro Sá, Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes, respectivamente, guitarra e baixo, bateria, piano e baixo. Seria tão impossível quanto esperar de um vendedor de discos piratas da São Pedro uma conceituação sobre o dodecafonismo de Schoemberg. Não é à toa que ele foi vaiado em Fortaleza também, pois filha de peixe piranha é.

Caetano Veloso se renova a cada ano e se distancia a cada ano do grosso de sua antiga platéia dos anos 60, 70 e início dos 80. A maioria nunca ouviu falar em Artic Monkeys, Pixies, Sofa Surfers ou Cidadão Instigado. Bem antes do disco Cê, de 2006, que Pedro Sá é o escudeiro de Caetano Veloso. Com ele veio a pegada mais roqueira, mais dissonante, mais distorcida e mais experimental. Mas experimentalismo não é novidade para quem protagonizou o Tropicalismo e lançou discos como Araçá Azul e Jóia. Dessa vez, em lugar do concretismo na poesia e da estética hippie na música, está o existencialismo político e o minimalismo dissonante, que Pedro Sá trouxe como herança da banda carioca “As Mulheres que só dizem sim”.

Ver e ouvir Caetano Veloso em plena criatividade foi ter certeza que ele é, sem dúvidas, um dos mais importantes artistas brasileiros de todos os tempos, não só pelo serviço prestado, mas também pela continuidade de um caminho completamente alheio ao óbvio e ao pastiche. O que se viu no palco da Aplausos foi um artista vivo, atuante, diametralmente oposto ao conformismo, livre do exibicionismo, do virtuosismo e do formato comercial. A partir da perspectiva imobilizada dos museus e afins, bem como do asseio anômalo dos entrepostos de verduras e contrabandos do Paraguai, nada mais natural do que boa parte da platéia não ter entendido nada, inclusive a dedicatória de duas músicas em memória de Augusto Boal.

terça-feira, 12 de maio de 2009



Orquestra Imperial
Nem tudo o que balança é swing


O mercado fonográfico brasileiro é muito peculiar, às vezes brinca amadoristicamente de ser profissional e outras profissionalmente leva a sério ser amador. Esse é o caso da numerosa banda Cult Orquestra Imperial, que tem um magote de músicos da cena carioca, que nasceu com o intuito de “resgatar” a verdadeira essência cultural da gafieira e adjacências, mas que não passa de uma banda extrapolada demograficamente, que resolveu compor o seu próprio material, saindo do barzinho sem o barzinho sair dela.


Ao vivo e tocando o repertório dos outros essa banda é perfeita e com pouquíssimas cenas de canastrice musical. Em estúdio e tocando o próprio repertório a banda parece encenar um decadente teatro de revista, sem pique e sem a menor criatividade e isso é o que mais surpreende do que espanta, tendo como referência os inúmeros talentos envolvidos no projeto, que de início parecia despretensioso e que gora resolve entrar para o campo autoral. O disco “Carnaval só ano que vem”, é bem gravado, bem executado, mas é morno, extremamente morno. Sendo que em alguns momentos o disco se torna radicalmente careta.


A escolha da faixa de abertura, “O mar e o ar”, não poderia ter sido pior, com o desafinado Rodrigo Amarante cantando um samba canção sem a menor convicção de que um cantor não vive sem ser um ator musical. O xilofone e a guitarra havaiana ainda tentam dar um ar mágico às coisas do mar, sem que as ondas sirvam para surfar. A faixa dois, “Não foi em vão”, é um samba com um dos arranjos mais quadrados de metais da música popular brasileira, tão careta que chega a dar saudade de Lincon Olivetti. A faixa seguinte, “Ereção”, celebra o ambiente sensual dos bailes de gafieira e trata da ereção, tão comum nas danças coladas. A mídia amiga afirma que esse é o lado bem humorado da banda, mas que na realidade é a baba do babaca.


A faixa “Jardim de Alah” é um lenga lenga sem fim, é o jeito Rodrigo Amarante de cantar fazendo escola. A caretice dos metais prossegue em rota épica, ganhando os mares e os bares, com ar de fim de festa. A faixa seguinte, “Rui de mes souvenirs”, é uma espécie de bolero-bossa-samba cantado em francês, pense numa porcaria que não deveria ter entrado no repertório nem como faixa bônus. A saga dos metais argonautas continua, com notas alongadas e naufrágios aprofundados. A Orquestra tem inúmeros cantores e colocam logo Rodrigo Amarante para cantar uma rumba, que acabou transformando a música, “Yarusha Djaruba”, em um sonrisal dissolvido em uma cuba-libre, com rum do Paraguai.


A faixa seguinte, “Era bom”, é um sambão quadrado, pé-duro, guarda roupa de quitinete, com direito a todos os laraialás possíveis e imagináveis, bem como uma letra que mistura metalinguagem sobre as próprias raízes sambistas e sexo de quinta categoria. Os metais continuam reféns de arranjos dignos de Roberto Carlos se apresentado em um cassino do Panamá. A outra faixa, “Salamaleque”, é outro sambão quadrado, pé-duro, guarda roupa de quitinete, com direito à rima esperta de pileque com salamaleque, essa é dose de fubuia de renovação. Mas em se falando em letra tenebrosa, nada supera a poética ginasial de “Ela rebola”: “Ela rebola pra lá / ela rebola pra cá / mas pra mim bola ela não dá / ela rebola pra cá / ela rebola pra lá / mas bola pra mim eu sei que ela lalalah...” Essa babaquice monumental é de autoria de Jorge Mautner, que participa da última faixa do disco.


O disco se encaminha para o final com, “De um amor em paz”, outra música que deveria ter ficado de fora do repertório, outro lenga lenga sobre o amor, com os metais enchendo o saco com um arranjo de sinfonia para velório. Nina Becker não cante essa música mais nunca, pelo amor aos seus fãs. Só na última faixa, “Supermercado do amor”, é que a verdadeira Orquestra Imperial dá as caras, mas aí já é tarde e o baile está acabando e só resta pegar duas conduções de volta para casa, arrependido.


Provável formação:


THALMA DE FREITAS (voz) - NINA BECKER (voz) - MORENO VELOSO (percussão e voz) - RODRIGO AMARANTE (voz) - WILSON DAS NEVES (voz e percussões) - NELSON JACOBINA (guitarra e violão) - BARTOLO (guitarra) - PEDRO SÁ (guitarra) - RUBINHO JACOBINA (teclado) - BERNA CEPPAS (sintetizadores e percussão) & KASSIN (baixo) -.DOMENICO LACELOTTI (bateria) - STEPHANE SAN JUAN (percussão) - BODÃO (percussão) -.LEO MONTEIRO (percussão eletrônica) - FELIPE PINAUD (flauta) - MAX SETTE (trompete e flugelhorn) - BIDU CORDEIRO (trombone) - MAURO ZACHARIAS (trombonista)

segunda-feira, 11 de maio de 2009



Little Joy
Sonífero para cavalo


Através das esquinas que norteiam o chamado rock alternativo brasileiro é possível perceber que o pastiche e o simulacro dominam o que praticamente já nasceu dominado, com raríssimas exceções. Além da falta de originalidade e de talento, o que pesa ainda mais é a cara de pau de posar para imprensa como novidade. Esse é o caso do embrulho no estômago chamado Little Joy, liderado por Rodrigo Amarante, ex-Los Hermanos e Fabrizio Moretti, do The Strokes, que já nasceu possuído, com cara de ressaca e com o barulho de moedas velhas no bolso da calça.


Desde o último (?) lançamento do Jumbo Electro e de outras porcarias do gênero, eu não tinha escutado um disco tão ruim. Até parece que faz parte da estética indie não saber cantar e não saber tocar porra nenhuma. Mas a imprensa especializada em mercado adora esse ar blasé, essa melancolia de corno de balcão de bodega, essa sonolência de lombra de chá de zabumba, esse cheiro constante de merda sonora. O disco do Little Joy reinaugura a estética do entulho: só ocupa espaço e não serve para nada, nem mesmo para promoção dos dias dos namorados arrependidos de ter transformado um fica num problema.


Mas o último disco de estúdio dos Los Hermanos já anunciava o cansaço, o marasmo, a falta de criatividade da dupla de compositores da banda. É tanto que a ele se seguiram o horripilante ululante “Nós”, de Marcelo Camelo, e depois esse glorioso barbeador enferrujado, prostrado na margem direita do rio Tietê, que atende pelo singelo nome Little Joy (um trocadilho para pequeno prazer) engendrado nas entranhas da frieira mais macabra do dedo mínimo do pé esquerdo de Rodrigo Amarante e Fabrizio Moretti. Sem que a ficha tenha dado o ar da graça, eles, ainda como Los Hermanos, lançaram o pastelão da impostura, ao vivo, na Fundição Progresso.


O disco abre até com vontade de enganar o mais incauto dos desconfiados com a faixa “The next time around”, uma balada indecisa em ir para frente ou ir para trás, embalada com uma das letras mais babacas do disco. O clima retrô permanece na segunda faixa, “Brand new start”, uma das poucas que se salvam nessa inesquecível ruma de músicas ruins. “Play the part”, terceira faixa do disco, se supera em todos os sentidos: mal cantada, mal arranjada, mal tocada, melodia ridícula, letra imbecil, e o vocal de fundo... bem, o vocal de fundo é trágico, sem conseguir nenhuma raspa de comicidade. Essa faixa é só para quem segura o ovo esquerdo de Rodrigo e vigia o direito. Ruim é pouco.


“No ones better sake” é a única faixa que presta de verdade e tem uma pegada mais parecida com alguma coisa, mas nada que possa salvar a bruxinha se afogando. Logo em seguida o travesseiro definitivo é servido, uma obra prima de mediocridade. O famigerado vocal de fundo reaparece em “Unattainable”, cantada por Binki Shapiro, através da verdadeira fórmula do diazepan, e se prolonga em forma de anestesia para elefante na faixa seguinte, “Shoulder to shoulder”, que tem o solo de guitarra mais cretino do disco, e “With strangers”, que tenta parecer o lado imóvel do Los Hermanos. Aliás, dizer que existe alguma coisa musical nesse disco é muita generosidade. Little Joy é realmente pequeno e sem significado ou significante.


Já estamos na faixa oito do disco, “Keep me in mind”, e a cretinice se instala de vez. Essa faixa é um pastiche desacelerado dos Strokes, que vexame, que mico, justamente para quem já participou diretamente de dois dos maiores discos da história do rock brasileiro: “Bloco do eu sozinho” e “Ventura”. Não vou nem comentar a presença do músico Moretti, por que de fato ela não aconteceu, ainda mais com esse timbre ridículo de caixa e bumbo. Acho até que ele deveria ter arranjado algum tempo no Brazil e feito um curso intensivo com Pantico ou Pupilo.


Mas o pastiche continua na faixa seguinte, “How to hang a warhol”, em que parece que Juliann Casablancas, vocalista e líder dos Strokes, depois de tomar trezentas caipirinhas nos cabarés da Lapa, resolve dar uma canja.Binki Shapiro, namorada de Fabrizio e modelo profissional volta a atacar em, “Don`t watch me dancing”. Ao longo dessa cansativa audição, não sei se a banda tenta parecer Cat Power ou Cowboy Junkies, mas see que ela não conseguiu um mínimo de legitimidade. No entanto o tratamento mais radical contra a insônia só termina onze faixas depois, com “Evaporar”, um letárgico Rodrigo Amarante desfiando uma pífia filosofia sobre o tempo, que só faz reafirmar a certeza de que o primeiro disco do Little Joy é uma verdadeira perda de.


Eis os responsáveis:


Fab Moretti – guitarra / vocais
Binki Shapiro – vocais / teclados
Rodrigo Amarante – vocais / guitarra / teclados
Todd Dahlhoff - baixo
Noah Georgeson – guitarra / teclados

domingo, 10 de maio de 2009

Quinze minutos e não mais

Há um utilitarista
Dentro do capuz azul
Dentro do cu da codorniz
Doido pra fazer um
Fundamentalista feliz

Que importa
Se a lista é longa
E se os produtos permanecem
Imóveis na prateleira à espera
Do irrevogável John Stuart Mill

Que importa
Se o impostor se masturba
Olhando para a camponesa
Do rótulo vermelho
Da lata de manteiga

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Alguns segundos antes

Agora o que possuo
É esse dia trinta e três
Olho com meus dedos
Essa antinomia falida
Sinto o cheiro corcunda
Do cafezinho que foi
Servido a toda a escória
Aquela mesma que tem
Roubado a minha alma

Meus apelos já não são
Mais sinceros como antes
A padaria em que eu
Hipotequei minhas vísceras
Virou um estacionamento
Olho para minhas pernas
Ainda trêmulas e sinto
Que Maiakovski nunca
Foi um canalha como eu

Agora o que possuo
É da corja da esquina
Também pudera a corja
Toda me pertence inteira
Estão lá perambulando meus
Desejos embalsamados
E meu prazer infinito de
Ser chicoteado até o sangue
Pela balconista zarolha
Os famosos quinze minutos

Não conheço
A teogonia defendida
Pelos mulçumanos
Muito menos vejo
Percevejos na barba culpada
Atribuída aos judeus
Na crucificação de Jesus
Nem sei do sangue
Escorrido em Constantinopla
Pouco me importa também
Se Napoleão cagava de cócoras
Suas mágoas na ilha de Elba
Ou se o parvo D. João VI
Babava gordura pelo
Canto da boca após devorar
Cinco frangos de uma vez

A única história
Que me interessa de fato
É documentar com
Meus olhos de cafajeste
Belarmina armada até os dentes
Com um velho barbeador bic
Depilar sua linda vulva
E se cortar pelo menos
Por três vezes
E quando ela afasta
O lábio esquerdo ainda mudo
E passa a lâmina rente
Á varize encravada
Na reentrância da perna
Eu tenho a imperdoável certeza
Que já não me pertenço mais
Uma e um

Bem no coração da cidade
Existe um ferro velho
Carcomido pela esperança
De dias melhores
Lá as carcaças enferrujadas
Sonham com velocidades amenas

Bem no coração de Sebastião
Quando posto ele entre dentes
Um gosto de aço urdido
Aflora sem nenhum polimento
Quando ele imagina estuprar a irmã
Dentro do fusca esmaecido