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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O dioptro

Existe um terreno baldio
Nos confins do destino
Onde os pórticos esfarelam
E os arrimos atrofiam

Só alguns peregrinos
Conseguem encontrar lá
Mapas desidratados e
Cajados evolvidos de válvulas

Não há lá cognição
Mais pesada que o ar
É preciso então evaporar
Da alma desejos e dejetos

Eponina esteve lá e lá
Desenvolveu a sublime arte
De extrair as sombras que
Torturam a luz dos candeeiros

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008


As cidades Invisíveis – Ítalo Calvino
A arquitetura da linguagem

Se você está em busca de novos ares e pretende reformular o seu manual de sobrevivência no imensurável entulho de informações descartáveis que bombardeiam sua vida cotidianamente, o livro “Cidades Invisíveis”, do escritor italiano Ítalo Calvino, é uma das saídas mais honrosas que se tem notícia nos infindáveis subúrbios decadentes das artes contemporâneas.

Calvino morreu no dia 19 de setembro de 1985, na cidade de Siena, na Itália, aos 61 anos, de hemorragia cerebral. Apesar de falecido precocemente, o legado artístico desse que é um dos maiores intelectuais do nosso tempo, está mais vivo do que nunca, está próspero em seu caminhar para a eternidade. O descomunal da obra desse humanista italiano não está no tamanho, mas na inventividade, na arte indelével de manipular os signos lingüísticos e perscrutar o inusitado dentro das perspectivas existenciais humanas.

Calvino começa a sua trajetória literária dentro do neo-realismo, ainda sob influência de dois dos maiores escritores italianos dessa tendência, Cesare Pavese e Elio Vittotini, bem como tendo como fluxo literário as suas experiências como combatente na Segunda Guerra Mundial, quando integrou a Resistência Italiana, contra o fascismo. Ao longo da sua existência, e já como um sofisticado discípulo de Jorge Luís Borges, Calvino mudará radicalmente a sua estética literária, mas jamais perderá a História como a sua principal referência, seja a História próxima ou distante. É dela que ele extrairá os seus substratos existenciais, imaginários, mitológicos, simbólicos e fantásticos.

Ítalo Calvino é daquela linhagem de escritores que considera a linguagem como um meio e não como um fim. Nada em seu texto é bastardo. Nada em seu texto é compromissado com a uniformidade, da mesma forma que em seu discurso nada é casual. Ele é um autor com ramificações estilísticas dentro dos conceitos do realismo-fantástico, do realismo-maravilhoso, do realismo-mágico, do surrealismo e do historicismo livre das narrativas contemporâneas, em que a simbiose entre história e ficção acaba gerando o fragmentário, o descontínuo e o impávido estranhamento da desconstrução narrativa.

O livro “As Cidades Invisíveis” tem tudo isso e mais ainda o encantamento próprio da oralidade medieval. Não é romance. Não é conto. Não é crônica e nem poesia, é um entrelaçamento narrativo, sem limites de nenhuma espécie. É aquilo que Genette conceitua como hipertextualidade, um eterno revolver de textos em um único e interminável texto. Inevitavelmente paira sobre “As Cidades Invisíveis”, bem como outras obras de Calvino, como em “Se um viajante numa noite de inverno “e “O castelo dos destinos cruzados”, a marca inconfundível deMil e Uma Noites “, de Sharazade.

Tendo como fragmento de personagens Kublai Khan e Marco Polo, Calvino arquiteta o seu discurso tendo como argumento as descrições de várias cidades feitas por Polo a Khan. O livro tem como tema se divisões: As cidades e a memória; as cidades e o desejo; as cidades e os símbolos; as cidades delgadas; as cidades e as trocas; as cidades e os olhos; as cidades e o nome; as cidades e os mortos; as cidades e o céu; as cidades contínuas; e finalmente, as cidades ocultas. Cada cidade tema tem cinco descrições, que por suas vezes são entrecortadas com diálogos etéreos e descontínuos entre Polo e Khan.

Parece tudo muito justo e muito planejado. No entanto, o que brota dessa moldura não tem nenhuma ligação com o estático, o leitor mergulha de forma ilimitada em um universo filosófico de existências, de vidas, de experiências, de objetos, de utensílios, de víveres, de afetos, de memórias, de tensões, de alusões, desilusões e projeções supremas para a libertação do espírito e do corpo, jamais visto na literatura, não da forma proposta por Calvino e sua mágica com as palavras. Eis o reino da transmutação. O símbolo tanto controla como descontrola qualquer enunciado.

Verdadeiramente o viajante italiano foi contratado por 17 anos pelo grande imperador mongol Kublai Khan, como embaixador do seu império. Marco Polo e sua trupe, a serviço do grande Khan,fundador da dinastia Yuan, na China, percorreram a Tartária, a China e a Indochina, fazendo então relatos minuciosos de todas as suas incursões. São esses relatos que entraram para a história. Calvino aproveita essa deixa da história e cria uma das mais instigantes obras de ficção do nosso tempo. Simbolicamente todas as cidades descritas por Polo têm nomes de mulheres. Cada uma com sua peculiaridade, cada uma com seu segredo, cada uma com seu desdobramento surreal.

As cidades de Ítalo Calvino são completamente diferentes das nossas, elas contém o imponderável e as possibilidades impossíveis da existência e da convivência. Laudômia, por exemplo, são três cidades em uma, uma dos não-nascidos, uma dos mortos e outra dos vivos. Em Eufêmia se troca de memória em todos os solstícios e equinócios. Em Melânia, toda vez que o viajante vai à praça ele se depara com fragmentos de diálogos, que mudam de acordo com as visitas. Em Leônia, quanto mais a cidade expele coisas, mais ela acumula coisas. Eutrópia não é apenas uma cidade, mas todas, sendo que apenas uma é habitada, as restantes são desertas. Já em Bersabéia existe a crença de uma outra Bersabéia suspensa no céu, onde gravitam os sentimentos e as virtudes mais elevadas...

Para qualquer viajante estelar das letras, essa é uma parada obrigatória. Aqui você renova os ânimos, recarrega o que tem que ser carregado e recolhe os mapas secretos das mais importantes trilhas do mundo, do submundo e do supramundo. Seja bem vindo e não dê satisfações de onde você vem e para onde você vai, o que importa é viajar.

A ânfora

O pior dos desertos
É aquele que tem um outro
Deserto dentro dele

Um apaga os rastros
Esculpidos no outro com um
Vento que evoca invólucros

Assim o término de um
Labirinto é o início de outro
Que tende para o infinito

O pior desses grãos arremessados
É que eles lapidam como lixas
Que dissecam os sentidos

Diante dessa imensidão
Que se move para o devaneio
É impossível não lembrar Estamira

Que não salivava
Que tinha o estranho dom
De embalsamar palavras

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O Elmo

Conta-se com o
Barulho e a infidelidade
Das apostas feitas

Conta-se com o
Constante revolver
Dos prognósticos

Daí a sisudez ao incluir
Ou excluir tudo aquilo
Que se invade ou se evade

Mas não há lógica
Em desbastar o sumo
E empilhar os resquícios

Assim se debulhavam
Por entre a velha prótese
As palavras de Adalgisa

Já quaravam no anil
As palavras antes de ela ser
Rezadeira por dádiva

Quando ela ainda flutuava
Na força volátil do orvalho
Bem antes de existir

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O astrolábio

Desta vez
Eu conheci Zulmira
Que se debatia em convulsões
No chão da cozinha

Depois os cabelos
Amornados pelo fulgor
Depois o olhar sereno
Pousado sobre os subjetivos

Desta vez
O retorno se dera
De solstícios e equinócios
Deveras impronunciáveis

Havia percebido que um
Cemitério de falas mortas
Não é o silêncio ainda
O que muda não é a memória

terça-feira, 9 de dezembro de 2008


A Viagem do Elefante – José Saramago
Um mestre conta uma história

Depois de tantos anos com uma idéia na cabeça, desde 1999, Saramago entrega ao público uma viagem inusitada, cheia de ironias vigorosas, nada vigaristas, e sempre atravessando seus alvos com travessões travessos, questionadores da mormência histórica, obstinada em empilhar fuligens racionais por sobre os devaneios reais dos seres humanos em pleno absurdo da existência.

A idéia dessa narrativa surgiu quando ele almoçou em um restaurante de Salzburgo, na Áustria, chamado O Elefante, a convite de Gilda Lopes Encarnação. Neste restaurante algumas pequenas esculturas em madeira chamaram a atenção de Saramago, que logo ficou sabendo que eram representações de edifícios, que demarcavam a longa viagem de um elefante, de Lisboa a Viena. Nascia ali um conto singelo.

A narrativa se baseia na manobra diplomática envolvendo o elefante Salomão, que no século XVI, mais precisamente em 1551, cruzou metade da Europa, de Lisboa a Viena, dado como um presente, embalado como um golpe baixo e conduzido como uma esfinge. Dom João III, rei de Portugal e Algarves, casado com dona Catarina d’Áustria, resolveu oferecer ao arquiduque austríaco Maximiliano II, genro do imperador Carlos V, como presente de casamento, o elefante, muito menos por se tratar de uma imensidão, do que pelo tamanho maior da desculpa em não recebê-lo.

O livro levou cerca de dez anos para ganhar forma e foi escrito durante o período em que o escritor maior da língua portuguesa estava acometido por uma estranha e impertinente doença respiratória. O próprio autor achou que não escaparia e a narrativa ficaria inacabada. Mas, para o bem geral do povo culto, Deus disse que ele ficaria mais. Assim podemos conviver com mais esse filho da família Saramago, dona de uma linhagem astuta, elegante, provedora de signos e ironias, para além das habilidades técnicas da escrita, já nos domínios das esferas infinitas.

De acordo com Pilar del Río, mulher de Saramago, o autor entende essa narrativa como um conto e não como um romance. De fato, essa é uma deliciosa história contada ao pé da fogueira em um quintal vizinho. No entanto, nem de longe essa é uma obra pequena, claro que sem o fôlego de um O Evangelho Segundo Jesus Cristo, mas com o encantamento de Uma Jangada de Pedra. A técnica é de um exímio esgrimista em duelo indefinido com as palavras, com a planta dos pés postada no fio da navalha da criação.

A estética é nominal, leva a assinatura da contemporaneidade da obra de José Saramago, singular e plural, dialética, incontida em suas junções e disjunções, em suas diacronias e sincronias. A fusão entre história e ficção é uma das grandes janelas que arejam os ares da cansada literatura universal. Saramago é um dos seus mestres. É um duende que extrai de datas,decretos, de formulários e de protocolos, o sangue humano em sua mais sofisticada inventiva existencial.

Saramago fundamenta a história de Salomão, o elefante presente, e de seu conarca, o indiano Subhro, na mais pura metalinguagem, em que um narrador, que oscila em ser às vezes sim e às vezes não, observador, destila uma ironia fina sobre o ato da poética, sobre os valores da significação e sobre as intenções da escrita. O humanismo do teatro universal de Saramago está em todas as linhas, redimensionando os seres vivos, os mortos e os ressuscitados. As entranhas da convivência humana são revisitadas mais uma vez, como sempre, em tom quase que anárquico.

A forma como Saramago trata as formas do discurso continua a mesma. As falas são anunciadas apenas por maiúsculas, após vírgulas ou pontos. Os parágrafos são imensos, com imensas frases entrecortadas por imensas vírgulas. Agora as maiúsculas só aparecem para fundarem uma nova frase ou indicar uma fala, e não mais do que isso, todas as necessidades do uso delas está descartada, exceto as citadas. Existe um quê de descontinuidade e fragmentação no discurso poético de Saramago. Ele constrói para desconstruir, convidando o leitor para participar de seus estranhamentos específicos. Não podia faltar um toque de absurdo e de fantástico, senão não seria uma saga de Saramago.

Da mesma forma não poderia ficar de fora a abordagem especial que ele faz da estrutura caricatural da família real portuguesa, com seu ar infinitamente beócio, com suas digitais decadentes e seus rastros indolentes fincados no molde absconso da história. A burocracia patética do Estado português também recebe as suas devidas considerações irônicas. A igreja também é referenciada em seus mecanismos de burlas e dominações nefastas.

Entre tantos protagonismos da saga da comitiva, o episódio em que o elefante Salomão é obrigado a forjar um milagre, ao se ajoelhar frente à basílica de Pádua e frente a inúmeras autoridades do clero, para combater a expansão do luteranismo, é um caso à parte. É tão hilário quanto contundente o leitor se deparar com o livre comércio dos pelos do elefante como relíquias.

Assim conta o narrador, com ironia corrosiva, “Solimão (o elefante muda de nome ao chegar às mãos do arquiduque) recebeu em troca uma generosa aspersão de água benta que chegou a salpicar o conarca lá em cima, enquanto a assistência unanimemente, caía de joelhos e a múmia do glorioso santo Antônio estremecia de gozo no túmulo.” Esse é apenas um pedacinho dessa deliciosa jornada. Descubra você mesmo ela por inteira. Ela é encantada, como tudo que sai da imaginação desse fenômeno chamado José Saramago.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Dos hemisférios

Vou confessar
confesso que o farei
mas sem muita convicção
vou abrir o coração
talvez a mente não
pois ela mente
é cheia de demências cotidianas
gosta de elaborar fronteiras
e me meter dentro de extensões
que mais parecem caixas
dentro de outras caixas
sem consentimentos
apenas formadas por formulários
de alfândegas lotadas
de funcionários corruptos
assim tanto é que estive tão ausente
ocupado com minhas perdas
com braças e braças de terras ausentes
que já não fazem parte dos meus domínios
que me fazem sentir um retirante dentro de mim
que me fazem sentir que o meu sofá já não mais me pertence
como o velho computador que
sente ir embora as vogais
e vê o sistemático plano das consoantes
se entramelar entrementes
já o livro de Saramago
com a viagem do elefante Salomão
ainda me olha vislumbrado
já os beijos para os filhos
são imediatos como pés de patos
já os beijos para a amada eterna
resolveram estrelar um número novo nos trapézios
voam com os seus e os meus limites

Esse poema faz parte do livro inédito
"Manual de sobrevivência para astronautas"
e é dedicado a Carlos Rafael e Domingos Barroso